O Pé de Azeitona Roxa e o Doce Sagrado
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Nov 27, 2025
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Filosofia
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Todos os dias, tenho um ritual sagrado no trabalho. Conto um pouco dele nesse texto.
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Todos os dias, tenho um ritual sagrado no trabalho.
Logo ao chegar pela manhã, enquanto o sol entra no corredor dos laboratórios, vou direto ao encontro com um pequeno pé de azeitona roxa que nasce logo ali, ofereço-lhe um bom dia, toco em seus galhos, com delicadeza sinto a brisa sobre suas folhas que ainda evaporam enquanto amanhece.
Na companhia um do outro, em silêncio conversamos.
E mais adiante outro pé de jamelão, uma árvore grande, frondosa, plantada ali, à beira do caminho, humilde, sem atrasar o passo, mas para contemplação de quem por ela chega próximo.
Convidativa para quem precisa de presença.



Aliás, o sol do meio-dia em Boa Vista, em pleno lavrado de fogo, pesa sobre a moleira.
Minha face, que a brisa vem beijar, e os meus cabelos secos são o campo de batalha onde o vento luta pra varrer a quentura pra longe, uma épica batalha.
No entanto, a sombra da árvore é outra coisa. É também um refúgio, é como um colo, um regaço.
Fresca, ampla, generosa. Tem uma brisa que passa pelas folhas, a farfalharem, e chega até mim como um alívio de paz.
Como um presente divino silencioso, que está ali, quieto e oferece sombra.
Essa árvore, também chamada brinco de viúva, manjelão ou baga-de-feira em outras partes do Brasil, e que se adaptou tão bem a esse clima de lavrado, nessa parte da amazônia, é sagrada na Índia.
Está ligada ao exílio de Rama em seus catorze anos na floresta que aparecem no Ramayana, onde Rama sai da cidade de Ayodhya, a que não pode ser guerreada, a cidade invencível, onde tudo funcionava em ordem e justiça e o darma orientava cada passo.
Ele resolve trocar o trono pela floresta, o palácio e o luxo por comer raízes, frutos e mel.

Bom, o épico não conta exatamente qual frutos ele comeu. Mas quem tanto ouviu o conto logo pensou no Jamelão (jambu ou jamun, como é chamado em grande parte da Índia).
E faz sentido. O jamelão resiste ao verão indiano, cresce forte mesmo na seca, é simples e humilde. Na falta, é esperança e tem gosto de infância.
Sua coloração roxa-violeta, dizem, é a mesma cor da pele divina de Rama ou de Krishna, que ficou com a boca roxa ao comer o fruto.



Conta-se que o deus das nuvens, Megha, teria descido à Terra na forma de um jamun, razão pela qual a cor do fruto é tão escura e tempestuosa quanto as nuvens ferozes do monção.
Aliás, os antigos Puranas narram ainda que o cosmos foi dividido em sete continentes insulares e concêntricos, no centro dos quais ficava a Jambudvīpa, literalmente “a terra das árvores de jamun”.
Na Viṣṇupurāṇa, essas árvores são descritas como tão grandes quanto elefantes, e quando os frutos apodrecem e caem sobre o solo montanhoso, um belo rio purpúreo se forma a partir de seu suco roxo intenso.
Assim, Rama viveu comendo, além de mel e raízes, esse e outros frutos silvestres na floresta durante 14 anos.
Lá ele perdeu tudo que a cidade valoriza, trono, conforto e poder. Mas ganhou o essencial, sabedoria, humildade e a força que vem ao lidar com o que a vida oferece sem a ela resistir.
Tudo isso, antes de retornar como um governante perfeito, ideal.
Assim, essa árvore e sua copa densa, rica de sombra e de acolhimento me faz pensar sobre a vida e os dias que se seguem em sol a pino.
Não é sobre grandeza, sobre acumular, sobre provar alguma coisa. É sobre estar presente. Sobre oferecer sombra quando o sol aperta.
Tornar-se um rio que mata a sede, que é doce.
Não julgar.
Sobre compreender que o dar é tão importante para o fruto, quanto o receber é sagrado para a raiz.
Essa é a grandeza da árvore.
Enquanto isso, a vida, como sempre, sendo generosa do jeito mais simples e belo possível.