A memória na pedra
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Oct 15, 2026
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Arte
Filosofia
Autoconhecimento
summary
O tempo reduz a pó os monumentos da arrogância, mas preserva na memória do mundo a sensibilidade, a retidão e o cuidado.
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Post

O ser humano habita o tempo de uma maneira singular, somos capazes de antecipar a própria finitude e de nos perguntar o que restará de nossa passagem pelo mundo.
Dessa consciência da brevidade nasce uma de nossas inquietações mais antigas, o receio do esquecimento e o desejo correspondente de permanência.
Para lidar com a passagem dos anos, em muitos casos, construímos casas, acumulamos títulos, até fundamos instituições, gravamos nomes na pedra como quem busca prolongar a própria presença para além dos limites que o tempo nos concede.
Há algo de profundamente humano nesse impulso, afinal, deseja-se que aquilo a que dedicamos nossos dias não desapareça sem deixar vestígios.
Ao longo da história, esse desejo assumiu várias formas. Em algumas, tornou-se arte, conhecimento e cuidado, em outras, transformou-se em ambição, domínio e necessidade de reconhecimento ou adoração.
Quando a vontade de estar presente se confunde com a necessidade de parecer grandioso, começa-se a medir o valor da presença pela extensão de nosso poder, pela quantidade de pessoas com quem nos relacionamos (ou influenciamos), e da mesma forma pela dimensão das obras que levam nosso nome.
Esquecemos, então, uma pergunta fundamental, “o que permanece de nós quando já não podemos exigir que alguém se lembre?”
Em “Ozymandias”, poema escrito por Percy Bysshe Shelley no fim de 1817, essa pergunta ganha a forma do soneto:
Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante: - duas pernas de pedra, enormes e sem corpo, acham-se no deserto. E jaz, pouco distante, afundando na areia, um rosto já quebrado, de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante: mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos, à mão que as imitava e ao peito que as nutria No pedestal estas palavras notareis: ”Meu nome é Ozymandias, e sou Rei dos Reis: Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!” Nada subsiste ali. Em torno à derrocada Da ruína colossal, a areia ilimitada Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada. por Percy Bysshe Shelley (1817), tradução por Péricles Eugênio da Silva Ramos (1989).
Note que naquele período, uma colossal estátual de Ramsés II, conhecida como Younger Memnon, já havia sido pilhada do Egito para a Inglaterra, embora só chegasse a Londres em 1818, despertando o fascínio europeu e eliciando novamente os relatos clássicos, como do historiador grego Diodoro Sículo sobre os monumentos do faraó.

No poema um viajante encontra no deserto duas pernas de pedra sem tronco e um rosto despedaçado, meio enterrado na areia, cujos traços ainda conservam o desprezo de quem habituou-se a comandar sem oposição.
Encontra a ruína de um soberano que desejou eternizar o próprio poder e cuja memória acabou convertida em testemunho da fragilidade de toda grandeza humana diante da própria natureza, tudo o que deveria confirmar aquela soberania desapareceu, ou melhor, ao redor da ruína, agora a areia estende-se nua, rasa e ilimitada.
O rei desejava que sua grandeza sobrevivesse ao tempo, esculpida na rocha, queria que as gerações futuras contemplassem a pedra e reconhecessem nela a autoridade de um soberano cuja memória parecia destinada à eternidade.
Mas o tempo tratou de revelar o sentido daquele retrato noutra forma. O que deveria inspirar admiração tornou-se testemunho de arrogância, e a imagem da grandeza passou a revelar os limites de quem desejava representá-la.
“Alexandre, o Macedônio, e o condutor de mulas dele, tendo morrido, ao mesmo estado retornaram: pois ou foram retomados nas mesmas razões seminais do cosmos ou foram dispersados igualmente nos átomos.” - Marco Aurélio, em “Meditações”.

Há, porém, um detalhe nessa história que me chama a atenção, a descrição do rosto esculpido do rei.
Enquanto o império do rei se desfez em pó, a percepção do escultor permaneceu viva.
Mesmo nos fragmentos de pedra, o escultor anônimo deixou algo que atravessou os séculos, pois ainda é possível reconhecer um rosto humano, capturada séculos antes por alguém que soube observar com atenção e registrá-la na pedra.
O poder que tentou se impor pela força e pelo medo desapareceu, mas a sensibilidade que compreendeu a natureza humana daquela época continuou falando através dos séculos, ainda que somente aos corações daqueles que andam sobre o deserto.
Isso me faz lembrar os antigos jardins cercados por muros de pedra, erguidos para proteger e demarcar o terreno, esses muros acabam rachando sob o peso das chuvas e a força das raízes.
Contudo, as sementes que ali foram cultivadas espalham-se com o vento, atravessam as fendas e fazem florescer campos inteiros muito além dos limites impostos.
Aquilo que é feito apenas para afirmar a nossa própria importância endurece e se quebra, aquilo que é feito com atenção genuína à Vida encontra meios inesperados de continuar.
Em nossa escala cotidiana, raramente esculpimos colossos, mas reproduzimos o reflexo de Ozymandias sempre que confundimos controle com permanência.
Fazemos isso quando medimos o valor humano pelo prestígio, quando tratamos pessoas como degraus para projetos, quando exigimos ter a última palavra ou quando reduzimos nossa biografia ao nosso cargo, ou quando blindando nossas opiniões contra o diálogo.
Essa busca por superioridade nasce quase sempre do medo da nossa própria fragilidade.
Esse movimento que corresponde ao erro de identificar a totalidade do Ser com a individualidade passageira, em busca de segurança no que é inevitavelmente perecível.
Nenhum pedestal laboriosamente esculpido afasta de si o tempo, pois a verdadeira permanência humana nunca esteve na pedra das aparências.
Porém facilmente se reconhece a eternidade nas mãos que cuidam e acolhem, nos gestos que nutrem e curam, no afeto que não exige reconhecimento, na retidão do ofício, na honestidade intelectual e na coragem de habitar o presente sem a fantasia da soberania, com humildade e boa vontade.
Isso me faz pensar que quando há a necessidade de se provar valor ou de impor alguma razão, escolher a delicadeza do artesão em vez da rigidez do monarca cria melhores condições para que possamos nos dedicar com inteireza ao que está diante de nós.
Permite também que a qualidade da nossa presença afaste o desejo de ser admirado, substituindo o esforço de parecer invulnerável pelo compromisso de ser verdadeiramente honesto.
E costuma doer, rachar dói. Porém é também por rachaduras que a luz começa a entrar.
Se a areia invariavelmente cobre os monumentos da vaidade, mas a lucidez e a sensibilidade com que um ser humano compreende e respeita a existência atravessa os desertos da história,
Então, que a Memória Viva preserve tudo aquilo que é tocado com verdade.