Menina do Sorriso de Sol
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Oct 23, 2026
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Arte
Filosofia
Autoconhecimento
Texto Reflexívo
summary
Uma pequena reflexão matinal sobre o nosso lugar no mundo
type
Post
Todas as manhãs, por volta das seis e quarenta, saio de Santa Cecília rumo ao trabalho.
Ao atravessar a ponte dos Macuxis, o primeiro quadro do dia se desenha sobre a paisagem, no alto da ponte, quase sempre no mesmo ponto, um pescador lança sua linha em silêncio, tendo ao fundo as barcas de areia e a silhueta imponente e serena da Serra Grande.
É uma cena de profunda harmonia, em que o ser humano me parece caber perfeitamente na moldura da natureza.

Hoje em particular, ao olhar para aquela quietude banhada pela luz nascente, lembrei dos versos escritos pelo médico e filósofo Jacob Levy Moreno, em “As Palavras do Pai”,
Esta é a minha oração: “Que todos os seres sejam benditos Com um lugar no Universo, Com um lugar no sol, Ou um lugar na lua. Não importa onde, Se é um lugar onde possas criar-Me. Eu consegui para todos um lugar no Universo. Vá e assume o teu. Esta é a minha casa: o Universo. Eu a dividi. Que todos os seres sejam abençoados com um lar, Um lugar no universo. Que tu sejas bendito Com um lar. Que o Universo seja o teu lar. Eu fiz espaços tão imensos Para que todos possam encontrar Um lugar nele.” ~ Jacob Levy Moreno, “As Palavras do pai” (1922)
Pois poucos minutos depois da ponte, contudo, a paisagem urbana muda de tom e nos conduz a um outro quadro.

Ao passar em frente à rodoviária, em meio ao vaivém apressado de quem chega e parte, vejo famílias inteiras deitadas sobre a grama ou diretamente no calçamento em frente às lojas, rostos marcados pelo desenraizamento da migração e por tantas carências silenciosas.
Diante dessa imagem, surge também uma pergunta honesta, se os espaços do universo são tão imensos, por que o abrigo ainda falta a tantos irmãos de jornada?
O poema citado me veio à tona pois, a resposta, talvez, resida em uma delicada condição deixada pelo próprio Moreno em seu poema, o espaço nos é confiado como “um lugar onde possas criar-Me”.
A natureza nos oferece o solo, a água, o ar e a imensidão do céu. O abrigo humano, porém, também depende das escolhas que fazemos, das instituições que construímos e da maneira como reconhecemos a presença dos outros.
Na Grécia antiga, Diógenes de Sinope teria respondido, quando lhe perguntaram de onde vinha, que era cidadão do mundo.

Esse episódio é registrado por Diógenes Laércio e retomado pela enciclopédia de filosofia de Stanford em seu verbete sobre cosmopolitismo.
A resposta do filósofo move a questão da origem para a pertença, ou seja, nossa identidade não precisa terminar nas fronteiras da cidade em que nascemos, nem nossa consideração pelos outros deve se limitar àqueles que reconhecemos como semelhantes.
A ideia de uma comunidade humana mais ampla desafia justamente essa tendência de reservar a dignidade e o cuidado apenas aos que pertencem ao nosso círculo diário de convivência.
Há também uma aproximação interessante na interpretração de Heidegger sobre a palavra grega êthos, da qual herdamos o conceito de ética.
Ao retomar um fragmento de Heráclito, Heidegger relaciona o termo à ideia de morada, ao lugar em que o ser humano habita.
Ou seja, que tipo de mundo estamos construindo por meio de nossa maneira de viver?
Se a ética também pode ser pensada como uma uma forma de habitar ou uma casa que construímos juntos, então nossas atitudes participam da qualidade dessa casa que compartilhamos.
Assim, pode-se pensar que ser ético é justamente tornar o mundo habitável, ou melhor, construir um refúgio seguro onde a vida possa florescer.
Tal como a compreensão, no antigo Egito, sobre a harmonia cósmica da justiça e da reciprocidade, representada por Ma’at.
A beleza das estrelas só se completa na Terra quando não deixamos o vulnerável ao desemparo, construindo harmonia entre justiça, beleza e bondade.
Essa ideia ganha um rosto em meus pensamentos logo adiante no meu percurso, quando faço a parada diária no Hospital de Amor para deixar minha esposa, Vitória Régia, no instituto de prevenção de câncer onde ela trabalha.
Ali, onde a existência se confronta diariamente com sua extrema fragilidade, compreende-se que esse abrigo vai muito além das paredes de alvenaria, é também o trabalho de quem compartilha amor, conhecimento, atenção e dignidade a alguém que precisa de ajuda.

Vivi a prova viva dessa conexão há poucos dias, quando saí para almoçar com minha esposa por volta do meio-dia.
O sol ardia forte sobre a capital enquanto percorríamos a movimentada Avenida Ville Roy.
Na margem da via, avistamos uma família indígena abrigada na sombra de uma construção abandonada.
De repente, daquele pequeno abrigo improvisado, desprendeu-se uma jovem que corria em direção aos seus, do outro lado da avenida.

Ela trazia no rosto um sorriso de uma pureza luminosa, que nos chamou a atenção, uma alegria inteira, livre, completamente alheia aos perigos do asfalto.
Quando ela entrou de uma só vez na pista, o susto foi imediato.
Pisei no freio torcendo em silêncio, aquela fração de segundo que torci para que todos ao redor também a percebessem.
E o pequeno milagre da atenção compartilhada aconteceu, cada motorista, a seu modo e no sobressalto do instante, conseguiu frear.
Naquele segundo suspenso, várias consciências desconhecidas entre si frearam a própria pressa para proteger uma vida.
O asfalto perigoso converteu-se por um instante em abrigo, e a jovem atravessou incólume, levando intacto aquele sorriso puro até o colo de seus parentes.
E em alguns minutos, alguns policiais que presenciaram o ocorrido se aproximaram para orientá-los.
Percebi mais uma vez que dentro do coração humano habita um espaço tão vasto quanto o próprio firmamento.
E mesmo quando o abrigo material se reduz à sombra de um beiral abandonado, a alma ainda é capaz de guardar um sorriso solar.
E mesmo no trânsito apressado de uma avenida, basta um instante de lucidez coletiva para que nos tornemos guardiões uns dos outros.

Portanto, ao reunir essas cenas que cruzam os meus dias, faço minhas as palavras de J. L. Moreno.
Pois desejo profundamente que cada ser seja bendido com um lar nesta imensa casa que é o Universo.
Que o pescador conserve a paz de suas águas sob a Serra Grande.
Que as famílias nas calçadas e sob os beiras encontrem teto seguro, justiça e acolhimento.
Que os enfermos encontrem alívio e cuidado.
E que aquele sorriso puro continue atravessando em segurança e em paz os caminhos da Vida.
Que ao sairmos de casa a cada manhã, saibamos assumir o nosso lugar, sob o sol ou soba lua, fazendo da nossa presença e das nossas escolhas um abrigo vivo onde a humanidade inteira possa encontrar amor.
Abçs.