Sobre a Beleza

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Oct 2, 2026
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Filosofia
Reflexão
Arte
Música
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O que é beleza? Das sutilezas do dia a dia às palavras de Vangelis, vamos pensar sobre o belo.
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Olá, caros amigos e amigas. É uma alegria estarmos juntos para mais um momento de reflexão.
Hoje, vamos tratar sobre um dos temas mais relevantes, e talvez o mais difícil, existente para se discutir, a beleza.
Vejam que curioso paradoxo vivemos, por um lado, nada é mais essencial e importante para a alma humana do que aquilo que é bom, belo e verdadeiro. Por outro, nada parece mais misterioso e fugaz do que tentar definir qualquer uma dessas ideias.
Portanto, gostaria de começar compartilhando uma lembrança. Certo dia, a caminhar pelo campus Paricarana, notei uma pequena planta silvestre que havia rompido o asfalto duro da calçada, crescendo teimosa em meio ao cimento e à pressa dos pedestres.
Apontei uma planta para a pessoa que me acompanhava, maravilhado com aquela força da natureza. Fiz inclusive o registro em foto abaixo:
Foto: “Planta na calçada do campus Paricarana”, por J. Caraumã (2022). Fonte: carauma.com.Foto: “Planta na calçada do campus Paricarana”, por J. Caraumã (2022). Fonte: carauma.com.
Foto: “Planta na calçada do campus Paricarana”, por J. Caraumã (2022). Fonte: carauma.com.
Ela, no entanto, prontamente comentou apenas que a prefeitura universitária precisava capinar o “mato” que estava estragando o calçamento. Naquele instante, para ela, não havia ali beleza alguma, apenas desleixo urbano.
Claro, sua atenção voltava-se para outro lugar, não menos importante.
Para mim, porém, não havia obra mais comovente do que aquela vida silenciosamente vencendo a dureza do mundo.
Isso me coloca diante de uma velha e profunda questão, o que é beleza? Estará ela confinada apenas à cela "dos olhos de quem vê"?
Foto: “A Escola de Atenas”, por Rafael, afresco no Vaticano (1509). Fonte: Museu do Vaticano.Foto: “A Escola de Atenas”, por Rafael, afresco no Vaticano (1509). Fonte: Museu do Vaticano.
Foto: “A Escola de Atenas”, por Rafael, afresco no Vaticano (1509). Fonte: Museu do Vaticano.
Um ponto de partida para reflexão foi ler sobre a beleza, na Stanford Encyclopedia of Philosophy, pois há ali uma grande diversidade de tratados a respeito.
A saber, por exemplo, historicamente, a Beleza sempre esteve sentada no altar dos valores supremos, ao lado da Bondade, da Verdade e da Justiça.
Na antiguidade clássica, filósofos como Platão e Aristóteles, e os grandes arquitetos, não viam a beleza como um mero "gosto pessoal". Ela era objetiva, ou seja, Aristóteles nos falava de proporção, ordem e simetria.
A beleza era a assinatura matemática do universo.
Platão, de forma maravilhosamente poética no diálogo O Banquete, descreve a beleza como o grande ímã do Amor, uma escada luminosa que nos convida a subir. Começamos amando as formas físicas belas, mas esse amor nos empurra para cima, para a beleza das ideias, das leis, da justiça, até alcançarmos a Beleza em si mesma, pura e eterna.
Mais tarde, porém, Plotino nos ensinaria que a beleza é a vitória da forma e da Ideia sobre o caos. O feio é apenas aquilo que não foi dominado pela harmonia, aquilo que permanece disperso e sem propósito.
E na modernidade, por sua vez, com pensadores como Hume e Kant, que a beleza começa a ser deslocada para o mundo subjetivo, resumida a um "sentimento de prazer desinteressado".
No século XX, por exemplo, a beleza chega a ser atacada, associada ao elitismo ou ao mero consumo, fazendo com que a própria arte, muitas vezes, a abandonasse em favor do choque e do caos. Logo a arte, aquela que perturba o confortável e conforta o perturbado.
Bom, caros amigos e amigas, não tenho aqui a mais remota inclinação de transformar esta postagem numa pretensiosa síntese sobre o tema. E qualquer impressão puramente pessoal minha seria apenas uma visão estreita e míope.
Então, como discutir o belo se se perder em áridos labirintos epistemológicos ou no relativismo do "gosto de cada um"?
A solução que encontrei foi eliciar aqui a experiência que tenho com a beleza: a música.
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Para isso, transcrevo aqui as palavras de um dos mais importantes artistas da música do século XX, e provavelmente um dos poucos que sustenta em sua obra uma tradição com mais de dois mil anos, sendo simultaneamente um extraordinário inovador, o músico Vangelis.
Por que ele? Porque sinto que suas palavras são cristalinamente honestas, profundamente relevantes e intrinsecamente belas.
A música de Vangelis é bela por inúmeros motivos, mas cito apenas dois.
A primeira está na maneira como o próprio Vangelis compreendia o ato de compor. Ele não gostava da ideia de se apresentar como alguém que “criava” a música do nada.
Havia, em sua visão, algo que já existia antes do compositor, uma harmonia que precisava ser percebida. O trabalho do artista seria então abrir espaço para escutá-la e encontrar uma forma de torná-la audível.
Bastava silenciar, ouvi-la e reproduzi-la.
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A segunda está naquilo que ele deixou no mundo. Ao longo de sua obra, Vangelis transformou música em memória coletiva, associando seu nome a criações que atravessam gerações, entre elas as trilhas de “Carruagens de Fogo, Blade Runner e 1492: A Conquista do Paraíso”, além da própria música tema dos Jogos Olímpicos.
Além disso, como colocado nas palavras do saudoso professor e matemático Adonai Sant’Anna, Vangelis, seguindo a mais pura tradição grega, Vangelis nunca tentou projetar a si mesmo. Projetou apenas a arte, sustentada por si mesma. Entrevistas com ele são raríssimas. A vida pessoal de um legítimo pensador é irrelevante, o que interessa é o que ele faz, o que ele expressa. E a linguagem deste genuíno cultivador da beleza sempre foi a música, uma linguagem capaz de congregar pessoas por cima de qualquer barreira política, religiosa ou social.
É nesse espírito que apresento abaixo as palavras que Vangelis pronunciou na que foi uma de suas últimas grandes reflexões públicas.
A entrevista foi concedida ao repórter Tony Harris e transmitida pela Al Jazeera em 2012, no contexto de um evento no Catar organizado pela United Nations Alliance of Civilizations (UNAOC) - uma iniciativa das Nações Unidas voltada à aproximação entre diferentes sociedades e culturas na inauguração de um teatro.
Desejo a todos uma leitura inspiradora! 🙂

Talk to Al Jazeera - Vangelis: Uma Mensagem de Esperança (2012)

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Tony Harris: Vangelis, o compositor grego e criador mais aclamado de música eletrônica do mundo... Ele não dava uma entrevista na televisão há cerca de 20 anos. Até agora, no Talk to Al Jazeera. Ele veio ao Oriente Médio em meio a grandes agitações e nós nos encontramos com ele para falar sobre o papel da música em nosso mundo caótico e sobre o que o mundo precisa agora.
Vangelis: O que nós precisamos hoje, mais do que qualquer outra coisa, é investir na beleza. Porque a beleza é a harmonia que surge do caos. Mas nós investimos no caos. E por que investimos no caos? Porque o caos é muito mais lucrativo do que a paz. É por isso. Então, se você olhar ao seu redor, nada é voltado para a beleza. Da arquitetura à arte, a qualquer coisa, tudo é destruído. A beleza é uma espécie de válvula de escape (segurança) para as pessoas. E a música também. Eu não acho que a música de hoje seja bela. A música se tornou apenas uma maneira de anunciar outras coisas, porque ela é uma força muito poderosa. Através dela, podemos anunciar o que quisermos.
Tony Harris: Eu me pergunto... você viveu os anos 60. Eu também vivi. Vimos aquele período e toda a agitação que surgiu dele. E houve muita música que saiu daquela época. Algumas você diria que eram muito boas, outras nem tanto. Você acha que há uma oportunidade neste período em que estamos vivendo agora para uma música excepcional?
Vangelis: Eu não sei... Como você disse, tem havido muita música. Eu posso dizer que há a "música inocente" e talvez a "música fabricada". E nós passamos pela música fabricada por anos e anos. E então as gravadoras se tornaram muito, muito gananciosas. Quando a música se torna um produto, e a gravadora se torna uma indústria, então... algo está errado nisso.
Tony Harris: E, no entanto, você foi realmente parte desse sistema, não foi?
Vangelis: Sim e não. Porque quando comecei com isso, eu tinha a impressão de que, ao ser bem-sucedido — o que, felizmente, eu fui —, eu seria capaz de fazer coisas diferentes. Mas quanto mais bem-sucedido você se torna, mais prisioneiro do sistema você vira, porque eles não permitem que você faça as coisas.
Tony Harris: O sucesso não comprou a você, na sua carreira, mais liberdade?
Vangelis: Não, muito pelo contrário.
Tony Harris: Explique isso. Eu pensaria que, se você é bem-sucedido, tem a oportunidade de dizer: "Não, eu não quero fazer isso. Não quero pegar a estrada e fazer 100 cidades em 100 dias."
Vangelis: Você se torna um produto. E a gravadora investe nisso. Agora, se você é a Coca-Cola e quer mudar o sabor, o que vai acontecer? Você tem que mantê-lo até morrer. É por isso que pessoas que têm uma certa idade hoje continuam fazendo a mesma coisa e parecem ridículas. Porque não ousam mudar nada. Eu não comecei nesse negócio porque queria me tornar um astro pop ou uma "estrela". Eu queria fazer algo, e tive que lutar de dentro para fora. É extremamente difícil. Meu interesse é a música, não me tornar famoso e dar shows.
Tony Harris: Vamos colocar de outra forma. A realidade é que você se tornou uma estrela. Como isso limitou suas escolhas?
Vangelis: Limita as escolhas de expressão, sim. Escolhas para comprar um carro legal e uma casa bonita, não. Mas esse não é o objetivo. (...) Vamos colocar de outra forma: você tem a música e tem o compositor. Quem guia quem? Se a música guia o compositor, o resultado será honesto e saudável. Se o compositor guia a música, o resultado será desonesto e negócio de gravadora. Eu sirvo à música.
Tony Harris: Eu adoro as histórias sobre a sua juventude e a sua chegada à música. O que foi isso? Foram apenas sons que despertaram seu interesse? Como você encontrou o piano?
Vangelis: Eu não me lembro. Eu apenas me vi sentado no piano. Simplesmente aconteceu e eu não sei como explicar.
Tony Harris: Isso é muito louco, porque existem várias pessoas que tiveram carreiras notáveis sem treinamento formal, e você é uma dessas pessoas. Você fez músicas incríveis e não pode apontar para um treinamento formal. Então, como você explica seu processo criativo, essa ideia de ser um "receptáculo" para a música?
Vangelis: Nós chamamos de "treinamento formal" quando se trata de escolas de música. Meu treinamento formal foi a Natureza. Minha professora é a própria natureza. Minha professora é a própria música. Eu sou música, todo mundo é música. É uma equação matemática, é a forma como você percebe as coisas. Não significa que você vai para a escola e se torna um músico. A maioria das escolas ensina repertório, não música. Música é uma coisa diferente. É uma das coisas mais importantes e que foi distorcida, como muitas outras coisas importantes. Falamos sobre paz, e o conceito está distorcido. Amor, distorcido. Música, distorcida. Você tem que pensar um pouco quando está sozinho à noite: o que é isso? O que a música significa? O que é o amor? Não os clichês.
Tony Harris: Você chegou a alguma conclusão sobre a música? Sobre o amor?
Vangelis: Sobre a música, eu te disse, meu treinamento formal foi a natureza. A conclusão é que a natureza e a música são exatamente a mesma coisa. O universo é música. Cada um de nós é uma galáxia. Se você olhar no microcosmo com um telescópio, é exatamente a mesma coisa. Então, a música não é apenas pegar um violão, fazer shows e ser bem-sucedido. Outra coisa que me deixa louco é a obrigação de ser bem-sucedido. Por que eu tenho a obrigação de ser bem-sucedido?
Tony Harris: Porque você tem que alimentar um sistema!
Vangelis: Ah! Agora você está falando.
Tony Harris: Vangelis, quero que nos guie por essa noite incrível, a abertura do anfiteatro em Doha [no Catar]. Em primeiro lugar, o convite e por que você aceitou vir.
Vangelis: Eu decidi porque é muito raro ver um país que parece estar interessado em educação, arte, ciência, cultura... Para mim, essa é a chave contra a crise atual. Porque falamos de crise, crise, crise o tempo todo. Mas a crise bancária não é tão importante quanto a crise cultural. Quando você lida com a cultura, você consegue administrar o resto mais facilmente. Fiquei muito impressionado que eles construíram este teatro em estilo grego, que para mim é mais vivo, funciona como um alto-falante. Construir teatros hoje nos dá esperança.
Tony Harris: O que o motiva hoje em dia? Qual foi a faísca criativa para compor essa música original para a apresentação [da Primavera Árabe / evento em Doha]?
Vangelis: Todos os dias eu crio música. A razão pela qual fiz isso aqui é pela abordagem deles. Vejo um país que demonstra interesse em algo que considero que as pessoas precisam mais do que tudo hoje. A miséria de hoje existe porque não temos mais "qualidade de vida". E qualidade de vida não é dinheiro. Qualidade de vida é algo diferente. Por exemplo, civilização não é tecnologia. Você consegue imaginar alta tecnologia sem pessoas civilizadas? Quão perigoso isso pode ser? É um jogo muito, muito perigoso.
Tony Harris: Você sente a necessidade, neste ponto da sua vida, de produzir mais discos?
Vangelis: Não. Eu componho música todos os dias.
Tony Harris: Você não sente necessidade de divulgá-la pela internet, para que as pessoas ouçam, para compartilhar seu sentimento e influenciar o tipo de mundo que você gostaria de ver?
Vangelis: Compartilhar é muito importante, mas não quero impor. Quando você entra no sistema, você tem que impor as coisas. E isso vai contra os meus princípios. É muito perigoso.
Tony Harris: Falando em compartilhar, você tem uma vida maravilhosa e me parece que você não compartilha muito dela nas redes sociais. Você não joga o jogo do Facebook, do Twitter... Por que você não compartilha mais do que eu acho que é uma vida maravilhosa com amigos e conquistas?
Vangelis: Porque eu não quero inundar as pessoas comigo mesmo. Já há problemas suficientes. Há pessoas que amam fazer isso, eu prefiro ficar na minha e compor. Quem quiser ouvir a música, tudo bem. E se eu puder ajudar, eu ajudo.
Tony Harris: Se eu te pedisse para compartilhar comigo os melhores momentos da sua carreira de composição... O que você destacaria? Os filmes? Blade Runner? Alexandre?
Vangelis: Blade Runner foi muito importante porque foi muito profético. Se eu o fiz, foi porque senti que estávamos caminhando para lá. E se você olhar ao seu redor, os prédios em Doha parecem Blade Runner! (Risos)
Tony Harris: Quando você é mais feliz? O que você está fazendo e onde você está no mundo?
Vangelis: Bem... Eu uso a frase de Oscar Wilde: "Não existe tal coisa como a felicidade, apenas momentos de felicidade". E esses momentos podem acontecer em qualquer lugar. Às vezes, quando estou com a música, sou muito feliz. Quando estou com pessoas que amo, sou feliz. Quando estou saudável, sou feliz. Quando vejo as pessoas sorrindo, sou feliz. Mas eu não estou feliz com o estado do mundo.
Tony Harris: Sobre legado. Sei que há muito trabalho pela frente. Mas o que você quer que as pessoas lembrem sobre sua obra e sobre você?
Vangelis: Eu deixo isso para as pessoas. O que elas preferirem. O trabalho que elas conhecem é uma porcentagem muito pequena do que eu componho, porque conhecem apenas o que vem das gravadoras e do cinema. Mas tem muita música sinfônica e outras coisas que elas não conhecem porque nunca lancei. Não gosto de dizer o que prefiro que lembrem de mim. Desde que a música em si seja tratada com mais respeito. Isso é tudo que eu gostaria de ver. Para mim, não peço nada.
Tony Harris: Obrigado pelo seu tempo. Foi um prazer.
Vangelis: Obrigado :)
E você, o que tem a dizer sobre beleza? Conte-me sua experiência com o belo nos comentários, ficarei feliz em ler.
Um grande abraço.
Críticas, elogios ou sugestões?
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