Coração que mora no rio
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Oct 16, 2026
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Arte
Filosofia
Autoconhecimento
Texto Reflexívo
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No silêncio de um rio à noite, descobrimos que o medo de mudar nos endurece, mas é o eixo firme no coração que permite a vida fluir sem perder o próprio centro.
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Post

Quem nunca se pegou buscando o isolamento e a solidão na esperança de encontra aquilo que a rotina parece está nos privando?
Um intervalo de silêncio para organizar os próprios pensamentos.
Há momentos em que o cansaço nos leva a procurar um abrigo silencioso dentro de nós mesmos.
Queremos calar os problemas, alguma saudade, firmar uma trégua com as inquietações e suspender, ainda que por algumas horas, o peso das lembranças.
Na quietude desse recolhimento, porém, basta observar a natureza ao redor para perceber que a vida raramente aceita nossas tentativas de imobilidade.
E uma sutil diferença se revela entre conquistar o silêncio e alcançar a paz.

Certa vez, nas margens do rio Cauamé que ficava próximo de onde morava, fui pescar à noite.
E quem já contemplou o curso de um rio à noite conhece a beleza e mistério que ele provoca.
A claridade da lua rasga as sombras e pousa sobre a superfície trêmula, onde a água corre sem parar.
É como uma torrente em constante despedida.
Diante dela, por um instante reconhecemos no correr das águas a imagem da nossa própria vida, e isso estranhamente nos acalma.
Como escreveu Heráclito de Éfeso, “aos que entram no mesmos rios afluem outras e outras águas”, versão ainda mais sutil do que a conhecida ideia de que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio.
O rio permanece sendo rio justamente porque suas águas não cessam de se renovar. Sua identidade não é ser o mesmo, mas em ser a sua própria transformação.
Ainda que represem suas águas, e seu destino ainda será desaguar.
Confesso, contudo, que com os pés n’água, nasce também em nós a tentação de endurecer.
Seja por medo da profundidade, do desconhecido, da mudança ou do que as águas possa nos surpreender, desejamos a condição da pedra.
Imaginamos que, se permanecermos firmes e imóveis no mesmo lugar, estaremos protegidos da perda.
Esquecendo que nem mesmo a rocha é poupada do desgaste.

Mas o que, afinal, nos prende com tanta força a um mesmo lugar?
Costumamos achar que permanecemos parados paenas por medo ou imposição, mas uma passagem do diálogo Crátilo, de Platão, chama atenção para outro pensamento.
Ao discutir o significado do nome de Hades, Sócrates pergunta a Hermógenes o que retém alguém em determinado lugar com maior eficácia, a coerção ou o desejo.
A conclusão é que não há amarra mais forte do que o desejo, sobretudo a esperança de que, permanecendo ali, encontraremos finalmente o que nos falta ou nos tornaremos melhores.
Assim, Hades manteria as almas juntos de si não pela violência, mas pelo desejo. Tal como no canto das sereias, aquilo que nos imobiliza é, muitas vezes, o encantamento de um destino que imaginamos alcançar.
Ou seja, aquilo que nos prende pode ser precisamente a promessa de que, permanecendo ali, encontraremos o que buscamos.

É nesse ponto que a espuma de um desejo passageiro se cristaliza em nós sob a forma de uma idolatria.
A palavra ídolo deriva do latim idolum, proveniente do grego eídōlon, e designava originalmente uma simples imagem, figura ou aparição.
A imagem, por si só, não é necessariamente enganosa, o impasse surge quando confundimos a representação mental com a realidade e passamos a tratá-la como absoluta.
Sem perceber, fabricamos ídolos interiores, imagens fixas de uma felicidade passada, de uma perfeição exigida ou de uma condição ideal, aos quais subordinamos a experiência presente.
Assim, é como se colocássemos um elefante imaginário para morar na sala da nossa consciência, passamos os dias tentando administrar o incômodo e os problemas de conviver com esse peso e tamanho, sem em nenhum momento questionar se o elefante realmente existe.

Pois, como escrito no capítulo 2, versos 62 e 63 do Bhagavad Gita, a contemplação repetida dos objetos dos sentidos produz o apego, do apego nasce o desejo e, quando esse movimento se desordena, sobrevêm a ilusão e a perda do discernimento.
Acorrentados a essas imagens que nós mesmos alimentamos, tornamos como a pedra descrita em “Medo da Chuva”, de Raul Seixas, a pedra que acaba chorando sozinha no mesmo lugar, que se se recusa a travessia, presa àquilo que já passou, sofrendo os impactos das águas sem jamais participar da sua renovação.
Pois o sofrimento mais persistente costuma brotar justamente dessa resistência, exigirmos fixidez de uma vida cuja natureza é o curso contínuo.
Tentamos conter a água entre os dedos e nos assustamos quando ela escorre.
No entanto, basta olhar novamente par ao leito do rio à noite para notar um detalhe reconfortante.
Embora a correnteza siga sem descanso em direção ao mar, o brilho da lua permanece iluminando sobre as águas em movimento.
A correnteza carrega a folha seca, a espuma e a poeira da margem, enquanto preserva a luz que a atravessa.
Assim também ocorre em nossa caminhada. A água que leva o peso dos dias é a mesma água que traz a fertilidade da margem seguinte.
O tempo que desfaz uma certeza míope é o único capaz de amadurecer a nossa lucidez.
Como canta Raul na mesma canção, “…perdi o meu medo da chuva, pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”.
Quando uma lembrança difícil ou o receio de uma mudança voltarem a rondar seus pensamentos, vale a pena pensar em que ponto da vida temos escolhido permanecer imóveis apenas pelo apego a uma imagem que já cumpriu o seu tempo.
Não temos a obrigação de endurecer para suportar a passagem das dos dias ruins, até porque ser mais duro não nos impedirá de desgastar e rachar.
Estabilidade e firmeza residem em construir um eixo firme em nosso coração, capaz de permitir a transformação sem que percamos nossa mais profunda essência.
E isso exige permitir que uma velha velha mágoa, uma expectativa frustrada ou o apego ao que já se despediu sigam o seu curso natural.
E que possamos aprender algo com isso, acolher o movimento da vida com as mãos abertas, confiando que aquilo que há de mais importante em nossa consciência permanece íntegro enquanto atravessamos a correnteza.
A seguir, segue o pequeno da Marquesa de Alorna:
Sozinha no bosque com meus pensamentos. calei as saudades, fiz trégua aos tormentos. Olhei para a Lua, que as sombras rasgava, nas trêmulas águas seus raios soltava. Naquela torrente que vai despedida, encontro, assustada, a imagem da vida. Do peito, em que as dores já iam cessar, revoa a tristeza e torno a pensar. - Marquesa de Alorna.
Forte abraço.