Sábios Conselhos Absurdos
date
May 2, 2026
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poema-contos-do-espantalho
status
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tags
Arte
Poesia
Caraumã
summary
Disse o espantalho ao Anum: entender não é difícil. Difícil é entender e continuar de pé.
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Sábios Conselhos Absurdos
Certa vez, na região do Truaru,
vi um sábio Espantalho muito modesto a conversar com um discípulo,
um anum pretinho que vivia sozinho,
e de ouvidos bem atentos lhe tomava nota de tudo que lhe dizia,
uma por uma ele escrevia com o bico a rabiscar o barro duro.
Quando cheguei, bem pertinho, sentei-me e também anotei o que ouvi, escrevi no coração.
I. Pedras ainda sangram? O osso pergunta ao relógio Se a pedra ainda sangra às terças. O relógio que não tem boca Disse que a pedra não tem terça. II. Qual o nome do vazio? Inventei um nome para o vazio Mas o vazio já tinha advogado E me contestou em latim Num idioma de ausência oblíqua. III. Cadê a escada do céu? Caiu ontem uma escada Em direção ao céu, O céu não estava em casa, Deixou bilhete: voltei já! E ainda espero. IV. O senhor do sete. Há um homem dentro do número sete Que não sabe que é impar. Vive feliz. Isso é insuportável. V. A sombra largou o emprego Hoje a minha sombra pediu demissão. Assinou com os dois pés. Desde então ando iluminado E ninguém me suporta. VI. O espelho que te vê de costas O espelho que me vê de costas Conhece segredos Que a minha frente Nunca teve coragem de ser. (Às vezes troco de lugar com ele. Nenhum dos dois nota a diferença. Isso diz tudo. Isso não diz nada.) VII. Dissolver um terço em azul Dissolvo-me em categorias: Um terço azul, Dois terços de quinta-feira, O resto, conforme o câmbio do dia. VIII. O nascimento da palavra Nasceu uma palavra nova hoje. Não tem significado ainda. Está no berço, chorando, À espera que o mundo Cometa um erro à sua altura. IX. O tamanho do infinito Perguntei ao infinito a sua extensão. Disse que não lembrava. Tinha saído pra comprar pão Em mil setecentos e nunca. X. Meu nome é Espantalho. Sou feito de coisas que não terminaram: Uma frase sem ponto, Um rio sem margem oposta, Um adeus que ficou no meio Da boca de alguém Que esqueceu meu rosto Antes de esquecer meu nome. E finalizou, com um ar sujo de sereno, Meu caro Anum, Entender não é difícil. Difícil é entender E continuar de pé.
por J. Caraumã, em reflexões diárias, 02 de maio de 2026.