Os Anjos e as Nuvens

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Jun 8, 2025
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Arte
Poesia
Caraumã
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Embaixo do mamoeiro, na sombra, olhei pro céu e perguntei: que horas são nas tardes deste quintal?
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Foto: Mamoeiro no quintal do Caraumã, por Vitória Régia (2025).Foto: Mamoeiro no quintal do Caraumã, por Vitória Régia (2025).
Foto: Mamoeiro no quintal do Caraumã, por Vitória Régia (2025).

Os Anjos e as nuvens

por Caraumã (2025)
Às vezes, de tardezinha neste quintal, não sei que horas são. Sei apenas que faz sombra ao pé do mamoeiro, e que, nesse calor, é mais do que suficiente. Olho para o céu azul e imenso, repleto de nuvens que o vento empurra devagar, como se também não existisse pressa. E nessa nuvens, começo a ver meus irmãos de asas. São anjos de variadíssimas formas, alguns choram pela dor da humanidade e suas lágrimas são chuva fina sobre as costas nuas da terra e dos cansados. outros sorriem com asas esfuziantes, como crianças que acabaram de descobrir o sol após a tempestade, ansiosos por brincar nas poças de lama e pequenos rios na beira de estrada que a chuva cuidou de deixar. Há também os anjos mais velhos, carregados de água, que guardam dentro de si tempestades de fogo e de silêncio do mistério. Há também muitos com cabelo enroladinho que saúdam cada rajada de vento como um velho amigo de infância. E há os peraltas, desses que brincam de riscar o firmamento com a ponta do dedo, a deixar no azul seus rabiscos coloridos de luz. Um deles nem a forma tem, mas tem o tempo todo na mão. Vive de ajustar seu relógio, sério e atento, enquanto um ou dois passarinhos famintos descem e comem mamão ali ao lado. E todos eles, os chorosos, os brincalhões, os carregados de trovão e de emoção, ouvem atentos as preces que sobem do chão. Porque lá de baixo, abrindo as asas negras contra o azul, vem o nobre alado urubu. Ele voa alto, vai além do que os olhos alcançam, e vive de purificar. Pois é ele quem revela onde, no horizonte do lavrado, há sede, há fome e há vontade de amar. Mais eis que surge um céu escuro, escuro como a mata no pé da serra, profundo e vivo, em contraste com a luz da Boa Vista , tênue de luz, mas que se recusa a apagar. E então vejo no alto alguns dos olhos de Deus, pequeninhos olhos de diamante que vão surgindo um a um. Um rosto feito de noite salpicada a velar. E quanto mais escuro fica, mais brincos de ouro aparecem no quintal. Já são tantos que não sei quais são estrelas ou não, e juntos formam uma procissão que mais parece um rio de ouro, com tantos a brilhar.
por J. Gomes (Caraumã), em “Reflexões Diárias”, 20 de maio de 2025.
 
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